PAIS ENCARAM A RESPONSABILIDADE DE CRIAR FILHOS SOZINHOS


PAIS ENCARAM A RESPONSABILIDADE DE CRIAR FILHOS SOZINHOS
ESCRITO POR SILVANA CIBELLE
LOCALIZADO EM ARTIGOS – SER PAI

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Há quatro anos, Arivan de Souza, de 37 anos, precisou encarar um desafio: com a morte da esposa, precisou se tornar pai e mãe ao mesmo tempo dos dois filhos Elaine e Elisafi, então com 13 e 14 anos de idade.

Depois de três anos dividindo as responsabilidades da paternidade com a avó dos garotos, decidiu que era hora dos três encararem a rotina sozinhos. Pai e filhos estão juntos em uma nova casa há um ano e vão muito bem, obrigado. Na verdade, apesar dos filhos já adolescentes, Arivan conta que encarar a vida a três, sem a participação da figura da mãe não foi fácil para nenhum deles, mas depois de quatro anos, o entrosamento entre pais e filhos está maior e mais cúmplice. “Sempre fui um pai presente, mas depois do que aconteceu, fiquei mais ainda”, diz ele.

Assim como Arivan, que precisou desempenhar as funções de pai e mãe depois da morte da esposa, muitos pais brasileiros estão arregaçando as mangas e decidindo cuidar sozinhos de seus próprios filhos; isso depois da morte da parceira ou mesmo a partir da própria decisão de requerer a guarda dos filhos. Segundo dados da Estatística de Registro Civil, de 2003, no Brasil, 3,664 mil pais têm a guarda legal dos filhos no Brasil. Na Paraíba, são 44 pais, de acordo com informações do IBGE. Parece pouco, mas, na verdade, isso é só um retrato desse novo perfil de família que começa a ser mais freqüente entre os lares brasileiros. “São várias ações de pais que lutam pela guarda dos filhos. Muitas vezes, isso acontece quando a mãe da criança falece ou mesmo quando os pais apenas querem ter a guarda”, reforça o juiz da Vara da Infância e Juventude de João Pessoa, Fabiano Moura de Moura, mesmo enfatizando que a decisão final sobre a guarda de uma criança só é decidida mesmo a partir de uma avaliação individual de cada caso. Desde a Constituição de 88, diz ele, os direitos em relação a pais ou mães são iguais, porém, para a Justiça, o importante é avaliar o que é melhor para a criança: ficar com pai, mãe ou uma outra pessoa da família. Quanto aos pais, se eles estão preparados para isso? Bom, eles garantem que sim. Dizem que é difícil no começo encarar a paternidade sem a presença e apoio – quase determinante – da figura da mãe, mas dizem que, se é preciso, arregaçam as mangas.

Lidar com mudanças é a parte mais difícil

Para o pai de Elaine e Elisafi, o mais difícil foi aprender ele mesmo a lidar com as mudanças. De repente, precisou estar atento ao que antes era papel quase exclusivo da esposa. Mais que isso, precisou ser paciente e entender que os filhos eram apenas adolescentes tentando lidar com uma nova vida sem a presença da mãe. “Tivemos um primeiro ano juntos muito difícil. Mudei para um quarto na casa de minha mãe e minha irmã, de quem tive um grande apoio. Nós tínhamos que dividir um quartinho para os três. Há um ano decidimos morar apenas os três”, conta Arivan, lembrando que costumava exigir dos filhos cuidados com a casa e com as tarefas que antes eram exclusivas da mãe. “Queria que eles mudassem de um dia para o outro”, diz ele.

Hoje, Arivan conta que os três já estão bem integrados, as tarefas de casa são todas divididas e esses anos acabaram aproximando mais ainda pai e filhos. “A gente acaba amadurecendo, vendo que os filhos não são mais crianças. Antes, tudo que eles queriam era com a mãe. Tive que aprender a decidir, por exemplo, se eles poderiam sair ou não, quando antes dizia: veja isso com a sua mãe”, lembra.

A filha Elaine reconhece os esforços do pai e diz que a situação para ele realmente não ficou fácil, mesmo com a participação, no início, da avó na reconstrução da família. “Ficou bem difícil para ele. Hoje ele tem que se virar, se dividir em dois; ele tem que trabalhar e ainda tem que cuidar da gente”, diz ela. O pai Arivan hoje respira mais tranqüilo, e até diz que a casa em que moram parece mais casa de estudante, quando o assunto é divisão de tarefas, por exemplo. “Dividimos tudo e cada um lava sua roupa. Parece casa de estudante”, diz em tom de brincadeira, e claro, agora mais feliz com seu papel de pai e mãe ao mesmo tempo. “Eu mudei muito. Fiquei muito mais pai, mais irmão”, comenta.

Homens precisam estar preparados

Para os pais que querem e brigam pela guarda dos filhos, a idéia de assumir a paternidade sozinhos, sem a presença da figura materna pode ser até, aparentemente, tranqüila. Mas, para quem precisa encarar essa dupla paternidade de uma hora para outra, ainda não é algo nada fácil para a maioria dos homens. “Ainda é difícil para o homem, hoje em dia, desempenhar este papel de pai e mãe ao mesmo tempo. Para muitos é dificílimo. Imagine este homem se deparar com a situação de desempenhar os dois papéis. Além do mais, isto é difícil mesmo, apesar de serem papéis que se complementam na função, exigem habilidades e competências diferentes e com fronteiras muito flexíveis”, destaca a psicóloga Tereza Freitas, especialista em terapia familiar.

“O acesso da mulher ao mundo do trabalho, resultante do movimento feminista na década de 70, também resultou no desafio da dupla jornada para as mulheres, mas não determinou na mesma proporção a inclusão do homem nos cuidados domésticos”, diz ela. Na prática, as mulheres acabaram precisando aprender a lidar com as chamadas duplas, triplas jornadas de trabalho, mas nem por isso os companheiros fizeram o caminho inverso e assumiram de vez os cuidados com a casa e os filhos.

Em todo o caso, diz a terapeuta, as boas exceções existem e estão fazendo crescer a lista dos homens/pais que resolvem assumir não só o lar como os cuidados com os filhotes. “Muitos homens têm descoberto o prazer de ser um pai participante, já que o antigo modelo não se encaixa mais nas novas necessidades requeridas. Atual-mente não temos um único modelo de pai, e sim uma variedade, uma vez que muitos pais lutam pela guarda do filho na hora da separação, têm prazer em cuidar e conviver com o filho, ser amigo, levar na escola, enfim experimentando e vivenciando ativamente o papel de cuidador”, completa. E se isso ainda é algo visto com outros olhos pela sociedade? Tereza diz que infelizmente ainda sim, mas que, é necessário entender isso como um novo processo de transformação e mudança da família. (SB)

FONTE: http://jornaldaparaiba.globo.com/gera-5-201105.ht

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