Os pais nunca foram tão bons como agora


Os pais nunca foram tão bons como agora

03.08.2011 Por Paula Torres de Carvalho
Quando Frederico Palma, de 34 anos, engenheiro informático, entra em casa depois de um dia de trabalho, não se senta no sofá a ver televisão. Esperam-no outras tarefas que partilha com a mulher, Rita, entre as quais está cuidar do filho Vicente, de três anos. Desde que Frederico nasceu que trata de tudo tal e qual como a mãe. Mudou fraldas e deu biberões, faz agora a sopa e dá-lhe banho, passeia e brinca com ele. “Naturalmente e com o maior gosto”, afirma.

“Cá em casa é tudo a dividir”, diz Rita, de 31 anos, professora. “E sinto que para o Vicente é igual se for a mãe ou o pai a dar-lhe o jantar ou a deitá-lo. Ele não estranha, porque sempre teve o pai a tratar dele.”

Longe vão os tempos em que os homens deixavam exclusivamente para as mulheres o papel de cuidadoras dos filhos e reservavam para eles a função disciplinadora. Hoje, há cada vez mais homens que se ocupam, tal como as mulheres, dos cuidados básicos das crianças, participam nas brincadeiras e apoiam-nas nos estudos, numa ruptura clara com as práticas de outrora, como no tempo dos avós ou mesmo dos pais.

Frederico admite que a naturalidade com que assume o papel de um pai cuidador pode explicar-se pela influência do seu próprio pai, o avô de Vicente, que também tratou dos seus três filhos com proximidade e intimidade num tempo em que isso não era tão habitual como agora. “Hoje, reproduzo esse modelo”, diz Frederico.

A atitude que adopta em sua casa e com o seu filho é uma prática seguida cada vez mais pelos homens portugueses, segundo mostra um estudo coordenado pelas sociólogas Karin Wall, Sofia Aboim e Vanessa Cunha do Instituto de Ciências Sociais (ICS), publicado no ano passado pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego.

A investigação que as sociólogas do ICS desenvolveram entre 2004 e 2005 sobre os novos lugares dos homens na família mostra que “quase todos eles procuram afastar-se das velhas figuras de marido e de pai distante, ausente e autoritário” e que “a figura do ‘chefe de família’, que emanava dos figurinos ideológicos do Estado Novo, encontra-se posta em causa de modo muito evidente”.

As autoras, que entrevistaram 74 homens, dizem que para eles “parece ser importante elaborar um auto-retrato associado à modernidade, à igualdade, à figura de um marido e pai presente e apoiante”. A relação umbilical e exclusiva entre a mãe e a criança verificada no século passado é “cada vez mais invadida pelos homens”, que se apropriam progressivamente da criança “na construção de uma masculinidade mais efectiva”.

E as referências masculinas?
Esta mudança não foi pacífica. As críticas vieram tanto da parte de pessoas com uma mentalidade mais conservadora, como de alguns psicanalistas que defendiam que os cuidados básicos deviam ser prestados pelas mulheres e mostravam-se adeptos de uma separação de papéis de forma a que a criança distinguisse entre as referências femininas e masculinas. Uma “visão tradicional e redutora”, na opinião do médico psiquiatra Daniel Sampaio. “A masculinidade e a feminilidade não se medem pela partilha das responsabilidades parentais, nem a criança integra essas diferenças a partir das práticas parentais”, afirma. O médico defende que “a co-parentalidade é enriquecedora para a criança, por isso a responsabilização de ambos os progenitores é o caminho a seguir”.

Só em casos extremos de grande isolamento social se poderá falar de falta de referências. Estas “obtêm-se pela socialização da criança e da família”, nota Daniel Sampaio, sublinhando que “não interessa ficarmos presos ao passado”.

Daniel Sampaio nota que as mudanças do papel do pai se enquadram “nas profundas alterações da família, ocorridas a partir da segunda metade do séc. XX”. Hoje, a família “deve ser considerada um espaço emocional em que a dimensão da ética do cuidar ocupa o primeiro plano, embora a organização familiar possa ser diversa” – família nuclear, monoparental, reconstruída.

Na perspectiva deste médico psiquiatra, o pai de hoje já não é o ganha-pão, o pai providenciador de outrora, mas “um educador presente em todos os momentos da vida da criança”. Esta evolução “é muita positiva para a criança e para a mãe”, já que o “cuidar” do pai enriquece a sua educação e “a partilha actual de responsabilidades educativas é, também, uma questão de igualdade”, sublinha Sampaio.

Tímido nos afectos
“Hoje, felizmente, muitos pais já são eixos estruturantes do crescimento dos filhos tão presentes como as mães, com inegáveis vantagens para eles e as crianças”, considera também o psiquiatra Júlio Machado Vaz. “O século XX viu os homens descobrirem que determinados afectos e competências não eram, de um modo fatalista, tipicamente femininos.”

“Jamais os progenitores masculinos foram tão bons como agora: atentos, disponíveis, presentes em muitas ocasiões”, nota Daniel Sampaio, estabelecendo uma comparação com os pais de antigamente que não cuidavam das crianças e quase não olhavam para elas. Alguns destes pais de outrora foram, no entanto, “boas referências e educaram pelo exemplo”. O seu pai, por exemplo, “educava à distância, mas com grande convicção em termos de valores”, admite. “Foi sempre uma referência” na sua vida, sublinha Daniel Sampaio.

Para Rita, a mãe de Vicente, o pai foi igualmente um “modelo” apesar de não ter estado muito presente no dia-a-dia do crescimento das filhas. “Mas era um homem muito afectivo” e hoje Rita dá por ela, várias vezes, a reproduzir junto de Vicente o que o pai lhe transmitiu.

Também o pai de Luís Filipe Carvalho, de 50 anos, professor, não passava muito tempo em casa. Militar, nunca tratou da alimentação dos três filhos ou da sua higiene, nunca os vestiu nem brincava com eles. “Às vezes ajudava-nos nos estudos, o resto era com a minha mãe”, conta.

Mas foi uma “referência importantíssima para toda a minha vida”, diz Luís Filipe. “Preocupava-se connosco, conversava muito com os filhos, contava-nos as coisas importantes que lhe aconteciam e assim transmitiu-nos valores fundamentais. Era um exemplo. Sempre senti muito orgulho nele.” Hoje, acha que é um pai diferente do que foi o pai: “Mais moderno, coopero na atenção aos meus dois filhos já adolescentes. Se a mãe não está preparo-lhes as refeições. Quando eram mais pequenos, tratava deles se fosse preciso, mas só se fosse mesmo preciso, confesso que não tenho muito jeito. Prefiro fazer actividades com eles fora de casa e ajudá-los nos estudos. E não me sinto nada pior pai do que os outros por isso.”

Embora um homem “intelectualmente brilhante”, o pai de Machado Vaz era “tímido nos afectos”, conta. “Levou-me demasiado tempo a perceber que à sua maneira me adorava como eu a ele. Receio que ambos tenhamos perdido momentos de comunhão por isso, resta-me cultivar-lhe a memória com desvelo. O que não é difícil – todos os dias penso nele sem necessidade de ‘muletas’ fotográficas, vive em mim e na tribo, como a minha mãe”, afirma Júlio Machado Vaz.

A investigação das três sociólogas, a mais recente que está disponível, confirma uma ideia-chave sobre a vida familiar no masculino: “a esmagadora maioria dos homens adere a uma nova imagem do pai presente e do pai educador, por oposição à imagem do pai autoritário, distante e castigador do passado.”

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