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Revista Psicopedagogia
versão ISSN 0103-8486
Rev. psicopedag. vol.28 no.85 São Paulo 2011

ARTIGO DE REVISÃO

A importância da figura paterna para o desenvolvimento infantil

The importance of the father in child development

Edyleine Bellini Peroni Benczik

Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

RESUMO

Em função das transformações sociais, culturais e familiares ocorridas, desde o século passado, o papel da figura paterna passou e está passando por mudanças significativas na nossa sociedade. O objetivo do presente artigo é trazer à luz algumas reflexões sobre o atual papel do pai, tanto para o filho, quanto para a família, bem como a sua grande importância na estruturação psíquica e no desenvolvimento social e cognitivo da criança.

Unitermos: Pai. Relações Pai-Filho. Relações Familiares. Família. Desenvolvimento infantil.

SUMMARY

Depending on the social, cultural and family occurred since the last century, the role of father figure now and is undergoing significant changes in our society. The aim of this paper is to shed light on some reflections on the present role of the father, both for the child, and for the family and its great importance in the psychic structure and social and cognitive development of children.

Key words: Fathers. Father-Child Relations. Family Relations. Family. Child development.

INTRODUÇÃO

O papel do pai na Sociedade tem se transformado, sobretudo, nas últimas décadas. De fato, a “condição” de Pai evoluiu e continua em franco processo de evolução, devido às transformações culturais, sociais e familiares, passando pela fase em que os filhos eram propriedades do pai (com as mães quase sem direitos), e pela fase em que o pai era apenas o suporte financeiro da família.

Costa1 resgata o pai antigo, proprietário de bens, escravos e filhos, disposto a impor sua lei e seus direitos e a resguardar seu nome e sua honra. Autoritário, se isentava de maiores compromissos e de manifestações afetivas para com os filhos, cuja relação era marcada pela ideia da diferença, ao se referir à hierarquia familiar: “adulto é diferente de criança, está na posição de quem sabe ‘mais e melhor’, e pode – e mesmo deve – de quando em quando, mostrar seu poder através do exercício legitimo da disciplina”2.

Gomes e Resende3 comentam que o homem encontrava dificuldades para separar sua individualidade das funções de pai. Manteve-se protegido no silêncio, comprometedor de toda possibilidade de diálogo com a família, especialmente com os filhos. Foi sempre apoiado pela cultura que, sendo patriarcal, reservou-lhe lugar acima da trama doméstica constituída, sobretudo pela mulher e pela criança. Esta situação vem-se modificando, lenta e progressivamente, de modo indissociável, da sociedade e família. Porém, a mudança de hábitos não acompanha o ritmo da transformação de valores. Antes de assimilar a nova configuração familiar, modelado no processo que introduziu a mulher no mercado de trabalho, o homem é surpreendido pela ruptura da hierarquia doméstica e pelo constante questionamento de sua autoridade. Tais mudanças não contribuíram para reduzir o vazio instalado na rede de relações afetivas.

O distanciamento entre o homem e os demais membros do núcleo familiar denuncia-se na fragilidade do vínculo estabelecido entre pai e filho, principalmente quando se trata de crianças do sexo masculino. Penetrar este silêncio e entender a questão do pai, tendo como eixo a identidade masculina, culturalmente determinada, tem sido tarefa de estudos, que colocam em perspectiva experiências contemporâneas de paternidade4. O pai exercia o poder na casa, com força para manter o círculo vicioso em que a família estava secularmente encerrada. Sua autoridade valia tanto para os filhos como para a mulher, que dele dependia economicamente e a quem se submetia de acordo com as regras estabelecidas. A importância do pai, do patrimônio e da religião reduziu, expressivamente, o espaço físico e sentimental da criança3.

Historicamente, até ao fim do século passado, o pai desempenhava essencialmente uma função educadora e disciplinadora, segundo códigos frequentemente rígidos e repressivos. E, a interação entre pai e filho era reduzida, particularmente nos primeiros anos de vida, bem como a sua participação nos cuidados diários à criança.

Marques et al.5 relatam que, depois da II Guerra Mundial e, em consequência de alterações profundas que se deram na sociedade ocidental, como os pais empregados, a composição da família nuclear e as dificuldades econômicas, o pai foi-se tornando cada vez mais participativo. Moraes6 afirma que, com um número de mulheres cada vez maior ingressando no mercado de trabalho e conquistando a independência econômica, ocorreram novos arranjos familiares, com significativa mudança nas relações entre homens e mulheres, como a separação entre papéis conjugais e papéis parentais. Nesta nova redistribuição igualitária dos papéis masculino e feminino, o homem como marido e como pai tem sido o principal alvo de transformação. No entanto, somente a partir da década de 50, e em resultado de progressos no domínio perinatal, que vários investigadores têm se debruçado sobre o papel do pai na vida do bebê, sobre a relação pai e filho e o processo de vinculação.

O PAI E A FUNÇÃO PATERNA

É reconhecido como importante o papel do pai no desenvolvimento da criança e a interação entre pai e filho é um dos fatores decisivos para o desenvolvimento cognitivo e social, facilitando a capacidade de aprendizagem e a integração da criança na comunidade7. A experiência clínica tem mostrado que, na vida adulta, as representações dessa vivência insurgem nas várias possibilidades de construção psicoafetiva, com repercussão nas relações sociais3.

As teorias psicológicas e as pesquisas científicas afirmam e fundamentam o papel da figura paterna no desenvolvimento e no psiquismo infantil. É pressuposto da teoria psicanalítica o papel estruturante do pai, a partir da instauração do complexo de Édipo. Na trama familiar, o sujeito se constrói e sai do estado de natureza para ingressar na cultura. Freud8, em seu trabalho Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância, afirma: “na maioria dos seres humanos, tanto hoje como nos tempos primitivos, a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que seu mundo desmorona se essa autoridade é ameaçada”. Para Aberastury9, o pai representa a possibilidade do equilíbrio pensado como regulador da capacidade da criança investir no mundo real. A necessidade da figura paterna no processo de desenvolvimento infantil ocorre entre seis e doze meses, quando a criança se vê inserida no triângulo edípico, denominado organização genital precoce, e, na adolescência, quando a maturação genital obriga a criança a definir seu papel na procriação, havendo um movimento mais intenso na adolescência para que o filho alcance maior autonomia.

Para Aberatury9 (1991), o lugar do pai, entre seis e doze meses, não é tão destacado na literatura, como acontece com a figura materna, no entanto, o contato corporal entre o bebê e o pai, no cotidiano, é referência na organização psíquica da criança, devido à sua função estruturante para o desenvolvimento do ego. No segundo ano de vida, já existe a imagem de pai e de mãe, e a figura paterna fica mais acentuada e tem a função de apoiar o desenvolvimento social da criança, auxiliando-a nas dificuldades peculiares a este período e no desprendimento necessário da criança aos costumes da situação familiar, mantidos pela mãe9.

Muza10 afirma que o pai aparece como o terceiro imprescindível para que a criança elabore a perda da relação inicial com a mãe, sendo que a criança necessita do pai para desprender-se da mãe e, ao mesmo tempo, também necessita de um pai e de uma mãe para satisfazer, por identificação, sua bissexualidade. Este autor afirma, ainda, que o pai passa a representar um princípio de realidade e de ordem na família, e a criança sente que ela não é mais a única a compartilhar a atenção da mãe.

Cavalcante11, apoiada pela teoria junguiana, sustenta que o arquétipo do pai, vivenciado através da encarnação no pai real, é o símbolo que promove a estruturação psíquica da criança e lhe permite abrir-se para o horizonte de novas possibilidades. Neste sentido, a identificação da criança com o universo de seu pai se dá por meio da experiência da interação, quando ele aparece como interdito na relação urobórica, entre mãe e filho e a sua presença marca, simbolicamente, a dinâmica de rompimento desta fase3.

Corneau12, fundamentado pelas ideias de Lacan, reafirma que o pai é o primeiro outro que a criança encontra fora do ventre de sua mãe, sendo ele indistinto para o recém-nascido, mas ao bloquear o desejo incestuoso, sua figura vai se diferenciando, permitindo o nascimento da interioridade do filho e desfaz, assim, a fusão entre o eu e o não eu, o pai encarna inicialmente a não mãe e dá forma a tudo que não seja ela. A presença do pai é que poderá facilitar à criança a passagem do mundo da família para o da sociedade. Será permitido o acesso à agressividade, à afirmação de si, à capacidade de se defender e de explorar o ambiente. Este mesmo autor acredita que as crianças que sentem o pai próximo e presente sentem-se mais seguras em seus estudos, na escolha de uma profissão ou na tomada de iniciativas pessoais.

A partir de um estudo de caso clínico e de uma rigorosa revisão da literatura, relacionada à importância da figura paterna na vida dos filhos, Eizirik e Bergamann13 afirmam que a ausência paterna tem potencial para gerar conflitos no desenvolvimento psicológico e cognitivo da criança, bem como influenciar o desenvolvimento de distúrbios de comportamento.

Shinn14 revisou os efeitos da ausência paterna no desenvolvimento cognitivo das crianças e concluiu que, em famílias sem a presença do pai ou nas quais os pais apresentavam pouca interação com seus filhos, havia maior associação com desempenhos pobres em testes cognitivos das crianças.

Montgomery15 observou que crianças com ausência do pai biológico têm duas vezes mais probabilidade de repetir o ano escolar, e que as crianças que apresentam comportamento violento nas escolas têm 11 vezes mais chance de não conviver na companhia do pai biológico do que crianças que não têm comportamento violento. Essas crianças, principalmente meninos, evidenciam maiores dificuldades nas provas finais e uma média mais baixa de leitura.

Além do papel crucial que o pai exerce na triangulação pai-mãe-filho, Muza10 cita que o papel paterno é crucial também para o desenvolvimento dos filhos na entrada na adolescência, quando a maturação genital obriga a criança a definir o seu papel na procriação. O impacto da ausência do pai na adolescência foi estudado por Jones et al.16, que compararam a separação psicológica e separação-individuação dos pais de 50 meninos, subdivididos em dois grupos, um de 25 meninos adolescentes que viviam com seus dois pais biológicos e 25 meninos adolescentes que viviam apenas com suas mães biológicas. Os resultados mostraram que os meninos dos dois grupos não diferiram nas medidas de separação-individuação, e que a qualidade da relação mãe-filho mediou muitas manifestações de separação-individuação avaliadas. Estes resultados enfatizam a importância da qualidade da relação do filho com sua mãe e com seu pai como um mediador de muitas dimensões do processo de separação-individuação. Segundo Muza10, crianças que não convivem com o pai acabam tendo problemas de identificação sexual, dificuldades de reconhecer limites e de aprender regras de convivência social. Isso mostraria a dificuldade de internalização de um pai simbólico, capaz de representar a instância moral do indivíduo. Tal falta pode se manifestar de diversas maneiras, entre elas uma maior propensão para o envolvimento com a delinquência.

Mason et al.17 abordaram os problemas de comportamento associados ao efeito dos pares e ao papel moderador da ausência paterna e da relação mãe-filho. O comportamento dos pares e a ausência paterna vêm sendo associados com maiores índices de distúrbios do comportamento em adolescentes. Pesquisas demonstram que a ausência paterna geralmente tem impacto negativo em crianças e adolescentes, sendo que estes estariam em maior risco para desenvolver problemas de comportamento. O estudo examinou o impacto dos pares, a ausência paterna e a relação mãe-filho em 112 adolescentes afroamericanos com problemas de comportamento. Um modelo moderador foi usado para testar a hipótese de que a ausência do pai (ou um equivalente) exacerbaria o impacto negativo de pares com distúrbios de comportamento, enquanto uma relação mãe-filho positiva seria um fator protetor contra esse risco e quanto à ausência paterna. O modelo moderador sugeriu que a ausência paterna ou de equivalente aumentou o impacto negativo de pares com problema comportamental, enquanto uma relação positiva mãe-adolescente atenuou este risco. Uma forte relação mãe-adolescente também mostrou proteger adolescentes de famílias sem pai do risco de distúrbios comportamentais associados ao envolvimento com pares com tais problemas.

Paschall et al.18 estudaram os efeitos de ausência paterna, cuidado parental e associação com pares delinquentes entre adolescentes afroamericanos com comportamento delinquente. Os autores relataram que os achados de estudos relacionados ao tema são mistos e inconclusivos e que há grande preocupação a respeito da ausência paterna em famílias afroamericanas em relação ao efeito negativo que isso pode causar no desenvolvimento desses meninos. Nesse estudo, a ausência paterna não foi associada com comportamento delinquente dos filhos e também não foi moderadora da relação entre associação com pares delinquentes e comportamento delinquente dos filhos. Mas o efeito negativo do fator socioeconômico no comportamento delinquente foi mais frequente em famílias com pai ausente. Pfiffner et al.19 estudaram a associação entre ausência paterna e características anti-sociais familiares. Os resultados apontaram que famílias com o pai morando em casa tiveram menos sintomas anti-sociais na mãe, no pai e na criança do que famílias sem o pai. Características anti-sociais foram maiores quando os pais não foram encontrados para participação no estudo. Os autores concluem que comportamento anti-social em qualquer membro da família é mais provável se o pai é ausente ou não-participativo.

O vazio promovido pela ausência do pai, segundo Ferrari20, é formado pela noção das crianças de não serem amadas pelo genitor que está ausente, com uma grande desvalorização de si mesmas, em consequência disso. Além dessa autodesvalorização, ocorrem os sentimentos de culpa por a criança se achar má, por acreditar haver provocado a separação e até por ter nascido. A criança pensa ser má também por ter sido deixada. O autor coloca que isso pode gerar reações variadas, desde tristeza e melancolia até agressividade e violência. E prossegue dizendo que os tímidos e temerosos do exterior se fecham em si mesmos, e os extrovertidos e temerosos do interior de sua história se vingam no mundo com condutas anti-sociais20. Para Eizirich e Bergmann13 e Gomes e Resende3, a literatura evidencia as modificações na estrutura das famílias contemporâneas, os efeitos negativos da ausência do pai e as repercussões decorrentes dessa ausência, tanto nos aspectos comportamentais, quanto nas vivências emocionais relacionadas ao complexo de Édipo. Estes autores relacionam a ausência da figura paterna à produção de variadas expressões de conflitos, defesas e sentimentos de culpa nos filhos.

Para Gai21, atualmente, tenta-se que a intervenção do pai seja cada vez mais precoce, inclusive desde o momento do nascimento, onde a sua presença parece aumentar o interesse e o envolvimento posterior com a criança.

Como vimos, a privação do pai pode ter consequências graves, a longo prazo, com problemas na modulação e na intensidade do afeto.

Santoro22 afirma que a ausência do pai pode comprometer a saúde da criança, e relata que pesquisas recentes revelam que a presença da figura paterna ajuda a afastar problemas como a obesidade e uma série de outros transtornos psicológicos. A pediatra Melissa Wake, do Royal Children’s Hospital, em Melbourne, na Austrália, realizou uma pesquisa com quase 5 mil crianças entre quatro e 5 anos. Ela descobriu que a incidência de sobrepeso e obesidade nas crianças em idade pré-escolar tem relação direta com a negligência dos pais. Outras pesquisas demonstram que as crianças que têm pai presente apresentam nível de autoestima superior àquelas que têm pai ausente, com o qual não convivem. O pai é um pilar muito importante no desenvolvimento de qualquer criança. Quanto maior é a participação e o envolvimento do pai no crescimento e na educação da criança, melhor é a qualidade da relação que se estabelece entre ambos23.

Bowlby24 também reforça a importância dos pais fornecerem uma base segura a partir da qual uma criança ou um adolescente pode explorar o mundo exterior e a ele retornar certos, de que serão bem-vindos, nutridos física e emocionalmente, confortados se houver um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. A consequência dessa relação de apego é a construção, por volta da metade do terceiro ano de idade, de um sentimento de confiança e segurança da criança em relação a si mesma e, principalmente, em relação àqueles que a rodeiam, sejam estes suas figuras parentais ou outros integrantes de seu círculo de relações sociais.

Mondardo e Valentina25 afirmam que um importante traço do comportamento de apego é a intensidade da emoção que o acompanha, o tipo de emoção que surge de acordo com a relação entre a pessoa apegada e a figura de apego.

Lebovici26, desenvolvendo estas ideias, reforça que, se tudo está bem, há satisfação e um senso de segurança, mas, se esta relação está ameaçada, existem ciúme, ansiedade e raiva. Se, ocorre uma ruptura, há dor e depressão. “Os efeitos perniciosos da privação variam de acordo com o grau da mesma. A privação traz consigo a angústia, uma exagerada necessidade de amor, fortes sentimentos de vingança e, em consequência, culpa e depressão”26.

Se uma pessoa teve a sorte de crescer em um bom lar comum, ao lado de pais afetivos dos quais pôde contar com apoio incondicional, conforto e proteção, consegue desenvolver estruturas psíquicas suficientemente fortes e seguras para enfrentar as dificuldades da vida cotidiana. Nestas condições, crianças seguramente apegadas aos seis anos são aquelas que tratam seus pais de uma forma relaxada e amigável, estabelecendo com eles uma intimidade de forma fácil e sutil, além de manter com eles um fluxo livre de comunicação27.

O mesmo autor aponta para as consequências da situação inversa, ou seja, se esta mesma pessoa vem a crescer em circunstâncias diferentes, seu núcleo de confiança será esvaziado, ficando prejudicadas as relações com outros semelhantes, havendo prejuízos nas demais funções de seu desenvolvimento.

As contribuições de Mahler7 ao desenvolvimento infantil reforçam as ideias desenvolvidas por Bowlby24 quanto ao estabelecimento, através dos cuidados parentais, de uma base segura aos filhos. Suas contribuições referem-se à importância fornecida às relações de objeto precoces. Mahler7 destaca que os três primeiros anos de vida da criança possuem importantes tarefas estruturantes, cujo alcance e passagem são determinados por dois fatores: primeiro, a dotação genética do bebê, que o impulsiona para o vínculo com o meio ambiente, permitindo perceber e aceitar os cuidados proporcionados pelos pais; e, segundo, a maternagem, ou seja, a presença de uma mãe que verdadeiramente proporcione esses cuidados.

O desenvolvimento do núcleo de confiança básico24, por meio do qual a criança é encorajada a explorar o mundo externo, adquire confiança em si mesma e nos demais indivíduos, e é de suma importância para a estruturação psíquica da criança. Rohde et al.28 relatam que a função paterna é fundamental para o desenvolvimento do bebê. Segundo os autores, tal função é dinâmica, já que o pai representa um sustentáculo afetivo para a mãe interagir com seu bebê e também, ainda nos primeiros anos da criança, deve funcionar como um fator de divisão da relação simbiótica mãe-bebê.

Para Pupo23, o ideal é que o pai participe dos cuidados com a criança desde o momento do nascimento: ele deve assistir ao banho, conversar com o pediatra e enfermeiras, cantar uma cantiga de ninar, ajudar na troca de fraldas e no banho21. Mesmo se o casal estiver separado, o pai deve participar ao máximo possível da rotina de seu filho, perguntando para aquela pessoa que fica mais tempo com o bebê sobre seus gostos e suas preferências. Fazer parte da vida de um filho é fazer parte de seu mundo, é conhecê-lo.

Desde o útero, a criança já escuta e discrimina a voz dos pais devido à diferença de tonalidade. Portanto, o vínculo do bebê com a figura paterna se inicia ainda no útero23. Esta nova configuração social de mudança de papéis na família, com o pai se tornando mais participante da vida dos filhos, possibilita que, além de provedores, estejam também desejando permanecer guardiões das crianças, quando o casal opta pela separação29. Esta é uma nova situação social histórica, com a qual casais têm se deparado com frequência. Em decorrência da separação, muitos pais estão solicitando a guarda compartilhada, ou seja, eles querem continuar participando da vida de seus filhos, e, exercendo o papel de pai, pois um novo perfil de pai foi se configurando: É um homem oriundo das classes médias ou altas, que se beneficia de uma formação e de uma renda mais elevada que a média. Tem uma profissão liberal que lhe permite, bem como à sua mulher, dispor livremente de seu tempo e rejeita a cultura masculina tradicional. A maioria se diz em ruptura com o modelo de sua infância e não quer, por nada, reproduzir o comportamento do pai, considerado “frio e distante”. Eles almejam “reparar” sua própria infância. Finalmente, vivem com mulheres que não têm vontade de ser mães em tempo integral30. Aquela figura que comumente se tinha somente nos finais de semana, dá lugar a um pai mais partícipe, envolvido com o dia-a-dia, com a educação e com o crescimento de seus filhos, priorizando e garantindo às crianças um ambiente seguro, mediante um desenvolvimento preservado, em prol da estabilidade emocional dos seus filhos. Mas, para Silveira29, juíza de direito, a Guarda Compartilhada só torna-se viável quando ambos os pais têm um firme propósito, especialmente aquele que não reside com a criança, que é o de cumprir as tarefas, que antes da separação eram cumpridas em parceria. Para esta autora, não basta compartilhar a Guarda, para ela os pais devem exercer a sua paternidade com desprendimento, amor, determinação e convicção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com todas as transformações ocorridas e que ainda estão ocorrendo na sociedade relacionadas à figura paterna, atualmente, ao seu papel de autoridade é agora adicionado o de fornecedor de carinho5, sendo que participa, cada vez mais, ativamente da vida das crianças e, brinca com elas, atuando na sua educação e formação.

Hoje em dia, o pai divide com a mulher as tarefas domésticas, vai às reuniões da escola, leva os filhos ao pediatra, ao dentista, às aulas de natação, futebol, dança, ou ainda, ficam em casa quando os filhos estão doentes. Este novo pai, cada vez mais, tem participado, de forma igualitária, nas atividades lúdicas da criança. Pode-se considerar que a presença do pai na vida de um filho é tão fundamental quanto a presença da mãe, quando se pensa em um bom desenvolvimento socioemocional da criança, sob vários níveis e circunstâncias25, pois não só complementa como reforça o modelo dado pela mãe, no qual os dois assumem os papéis de autoridade (impondo regras e punições) e dos afetos (fornecendo carinhos e recompensas). As brincadeiras se tornam mais ativas, ajudando a criança a explorar o mundo e a relacionar-se melhor com os outros. Para Gomes e Resende3, a criança necessita do par conjugal adulto para construir dentro de si imagem positiva das trocas afetivas e da convivência. Durante o desenvolvimento da personalidade, o pai real se sobressai e ganha consistência quando a criança o percebe enquanto desejo da mãe e objeto daquilo que o filho está apto a apreender dele, estabelecendo uma dialética.

Nos dias de hoje, um dos maiores problemas na educação dos filhos é a ausência do pai ou de uma figura que o substitua. Vale ressaltar aqui que a figura paterna pode ser representada por um tio, um avô ou outro adulto do sexo masculino que participe da vida da criança e que tenha um vínculo satisfatório com ela. A educação, para ser equilibrada, necessita dos dois progenitores. A presença paterna na família é diferente e complementar à materna. A falta de um modelo na educação, masculino ou feminino, implica quase sempre um desequilíbrio naquele que é educado (no filho).

Pode-se observar que os filhos necessitam de apoio e segurança e de valores que naturalmente cabe ao pai transmitir. Os jovens procuram no seu pai um modelo com o qual possam se identificar. Se o pai está ausente, outros modelos virão ocupar esse vazio, com grande probabilidade de não serem modelos propriamente exemplares5.

Entretanto, se os pais participarem e definirem em conjunto como querem educar poderão reforçar os seus papéis e darão aos seus filhos um modelo de crescimento saudável e harmonioso, com todas as condições para que o filho seja lançado na vida adulta, de forma mais estruturada e feliz.

CONCLUSÃO

As transformações históricas e sociais, envolvendo as configurações familiares, principalmente com relação ao papel do pai, estão ocorrendo, desde o século passado, e não chegaram ao seu final.

A figura paterna tende a estar cada vez mais próxima de seus filhos. Hoje em dia, os pais estão mais participativos e compartilhando vários aspectos da vida de suas crianças, tanto do ponto de vista emocional, social, quanto cognitivo. Ainda, há muitos pais que não estão ocupando este lugar, seja por não desejarem ocupar ou por acreditarem que não podem. Por outro lado, há também muitas mães que não concedem este direito ao pai de seus filhos. A literatura aponta que a participação efetiva do pai na vida de um filho promove segurança, autoestima, independência e estabilidade emocional7.

Desta forma, caberá aos profissionais da educação e da saúde mental a difícil tarefa de orientação e de conscientização junto às famílias, principalmente às mães que se sentiram prejudicadas no relacionamento conjugal e que evitam a aproximação do pai com o filho, no sentido da real importância da função paterna no psiquismo infantil e do seu impacto no desenvolvimento cognitivo, social e emocional de seus filhos.

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